Brasileiros denunciam exploração em sorveterias italianas na Alemanha

Reportagem da Süddeutsche Zeitung reúne relatos de trabalhadores sazonais brasileiros que denunciam longas jornadas, remuneração abaixo do esperado e condições consideradas abusivas em gelaterias administradas por italianos na Alemanha.

Uma investigação publicada pela revista Süddeutsche Zeitung Magazin colocou sob os holofotes as condições de trabalho enfrentadas por brasileiros que viajam todos os anos para a Alemanha durante a temporada de verão para trabalhar em sorveterias de tradição italiana.

A reportagem, assinada pela jornalista Stéphanie Mercier e publicada em 20 de agosto, reúne depoimentos de trabalhadores que descrevem jornadas prolongadas, baixos salários e condições de trabalho que consideram abusivas. O caso ganhou repercussão na Itália depois de ser divulgado pela emissora pública Rai.

Entre os relatos apresentados pela publicação alemã estão jornadas que podem chegar a 12 ou 14 horas por dia, semanas de seis dias e situações em que trabalhadores afirmam ter recebido valores inferiores ao correspondente às horas efetivamente trabalhadas.

De Urussanga para as sorveterias alemãs

Um dos aspectos centrais da investigação é a origem de parte dos trabalhadores.

Segundo a Süddeutsche Zeitung, muitos brasileiros que participam desse fluxo sazonal vêm de Urussanga, em Santa Catarina, município marcado pela imigração italiana e pela presença de descendentes de famílias que chegaram ao Brasil principalmente entre os séculos XIX e XX.

A cidade acabou desenvolvendo uma ligação particular com as gelaterias italianas na Alemanha. Ao longo dos anos, formou-se uma rede migratória que conecta famílias de origem italiana no Sul do Brasil aos estabelecimentos administrados por famílias italianas em território alemão.

Para muitos desses trabalhadores, a cidadania italiana obtida por descendência facilita a entrada e a permanência na Europa, criando uma possibilidade de trabalho durante os meses de maior movimento nas sorveterias.

Uma temporada em busca de renda

O trabalho em gelaterias alemãs costuma ser apresentado como uma oportunidade temporária.

Os brasileiros viajam durante a temporada de maior movimento, trabalham por alguns meses e esperam retornar ao Brasil com uma quantia significativa de dinheiro economizada.

A expectativa, segundo a investigação, é transformar alguns meses de trabalho na Europa em uma oportunidade de melhorar a situação financeira da família no Brasil.

A realidade descrita por alguns trabalhadores, porém, seria diferente.

A reportagem apresenta casos de pessoas que afirmam trabalhar durante longos períodos, com pouco tempo livre e remuneração que, segundo elas, não corresponde à quantidade de horas trabalhadas.

Relatos mencionam jornadas de até 80 horas semanais

Entre as denúncias mais graves estão relatos de jornadas que poderiam chegar a 80 horas por semana.

A Open, ao repercutir a investigação, cita depoimentos sobre turnos extensos, pagamentos não registrados e trabalhadores contratados formalmente em determinadas modalidades, embora, segundo os relatos, cumprissem jornadas equivalentes às de funcionários em tempo integral.

A Rai, por sua vez, relata jornadas de 12 a 14 horas por dia, seis dias por semana, além de casos em que os trabalhadores afirmam receber menos do que o correspondente às horas efetivamente trabalhadas.

É importante ressaltar que esses números fazem parte dos relatos e acusações apresentados na investigação jornalística e não significam que todas as sorveterias italianas na Alemanha adotem essas práticas.

Dependência do empregador aumenta a vulnerabilidade

A investigação também aborda uma característica que pode tornar trabalhadores sazonais particularmente vulneráveis: a dependência em relação ao empregador.

Em determinados casos, o mesmo empregador estaria ligado não apenas ao trabalho, mas também à organização da moradia durante a temporada.

Essa relação pode dificultar a decisão de abandonar o emprego diante de condições consideradas inadequadas, especialmente quando o trabalhador está em outro país e depende daquela estrutura para permanecer durante a temporada.

A situação também é influenciada pelo caráter temporário dos contratos e pela expectativa de retornar ao Brasil após alguns meses.

Uma tradição que começou com a imigração italiana

A presença de sorveterias italianas na Alemanha tem uma história muito mais antiga do que o atual fluxo de trabalhadores brasileiros.

A tradição está fortemente ligada à emigração de famílias do Vêneto e, especialmente, das regiões de Belluno, Cadore e Val di Zoldo.

A partir do século XIX e, posteriormente, no século XX, famílias dessas regiões migraram em busca de oportunidades econômicas. Muitas acabaram estabelecendo negócios ligados à produção e à venda de sorvetes artesanais em cidades alemãs.

Ao longo das décadas, essa atividade se transformou em uma importante tradição empresarial da imigração italiana na Alemanha.

A ligação entre Urussanga e o norte da Itália

A conexão com o Brasil surgiu posteriormente por meio das comunidades de descendentes de italianos.

Urussanga, no sul de Santa Catarina, possui uma forte identidade ligada à imigração italiana. Segundo a investigação da Süddeutsche Zeitung, a cidade tornou-se um dos principais pontos de origem dos brasileiros que trabalham sazonalmente nas gelaterias alemãs.

A relação também envolve Longarone, no Vêneto, município historicamente associado à tradição dos gelatieri italianos.

Urussanga e Longarone são cidades-irmãs desde 1991, reforçando os vínculos históricos entre as comunidades italiana e brasileira.

O peso da cidadania italiana

A investigação chama atenção para outro elemento importante: muitos dos brasileiros que chegam às gelaterias alemãs possuem cidadania italiana por descendência.

Para essas pessoas, o passaporte italiano pode representar uma porta de entrada para o mercado de trabalho europeu.

Assim, uma história que começou com a imigração italiana para o Brasil gera, décadas depois, um movimento migratório inverso: descendentes de italianos nascidos no Brasil retornam à Europa para trabalhar.

É justamente essa conexão histórica que ajuda a explicar por que Urussanga aparece com tanta frequência na investigação alemã.

Denúncias provocam reação na Itália

A reportagem provocou reação entre representantes de regiões italianas tradicionalmente ligadas à produção de sorvetes artesanais.

O ex-governador do Vêneto Luca Zaia criticou a generalização das acusações e afirmou que, se existem casos de exploração, eles devem ser investigados individualmente, mas que não seria correto transformar denúncias envolvendo determinados estabelecimentos em uma acusação contra toda a categoria.

Zaia também destacou a trajetória histórica das famílias italianas que construíram negócios de gelateria na Alemanha ao longo de gerações.

Prefeitos também contestam a generalização

A repercussão chegou a municípios italianos ligados à tradição dos gelatieri.

O prefeito de Val di Zoldo, Camillo De Pellegrin, classificou como injusta a representação feita pela reportagem e argumentou que eventuais irregularidades devem ser verificadas individualmente, sem atribuí-las a toda a categoria.

De Pellegrin também chamou atenção para a história da emigração da região, que durante décadas levou famílias do norte da Itália para a Alemanha em busca de trabalho e oportunidades.

O prefeito de Longarone, Roberto Padrin, também reagiu ao caso e afirmou que a reportagem atingiria uma história de imigração construída ao longo de gerações. Ao mesmo tempo, reconheceu que situações problemáticas podem existir e precisam ser analisadas individualmente.

A investigação não acusa todas as sorveterias

Um ponto importante para compreender a repercussão do caso é diferenciar as denúncias apresentadas na reportagem de uma acusação generalizada contra todas as gelaterias italianas na Alemanha.

A investigação da Süddeutsche Zeitung apresenta relatos de trabalhadores e descreve problemas encontrados em determinados contextos.

Representantes do setor, entretanto, contestam a forma como o fenômeno foi apresentado e afirmam que não se pode concluir que toda a comunidade de gelatieri italianos explore seus funcionários.

A existência ou não de irregularidades trabalhistas específicas deve ser verificada pelas autoridades competentes em cada caso.

Uma questão que vai além das sorveterias

O episódio também expõe uma questão mais ampla sobre o trabalho sazonal de imigrantes dentro da União Europeia.

Pessoas que deixam seu país por alguns meses para trabalhar em setores que dependem fortemente da mão de obra temporária podem enfrentar uma relação de dependência especialmente delicada.

No caso dos brasileiros entrevistados pela reportagem alemã, há ainda o fator da distância, da barreira cultural e da dependência de redes migratórias já estabelecidas.

Quando essas redes funcionam bem, elas podem facilitar a entrada no mercado europeu. Quando existem abusos, entretanto, a mesma estrutura pode tornar mais difícil para o trabalhador romper a relação de trabalho.

O que dizem os relatos dos trabalhadores

Os depoimentos reunidos pela Süddeutsche Zeitung apresentam uma realidade marcada por:

  • Jornadas muito longas;
  • Semanas com apenas um dia de folga;
  • Remuneração considerada baixa em relação às horas trabalhadas;
  • Relatos de pagamentos não registrados;
  • Dependência de empregadores para trabalho e, em alguns casos, moradia.

A expressão “somos tratados como escravos”, usada no título da reportagem alemã, resume a percepção de alguns dos trabalhadores entrevistados.

A publicação, entretanto, não afirma que todos os trabalhadores brasileiros ou todas as gelaterias estejam submetidos às mesmas condições.

Uma história de migração que se repete

O caso revela uma trajetória migratória incomum.

Primeiro, famílias italianas deixaram regiões pobres do norte da Itália e foram para o Brasil. Em Santa Catarina, comunidades como Urussanga foram construídas por esses imigrantes e seus descendentes.

Décadas depois, os descendentes retornaram à Europa, muitas vezes munidos do passaporte italiano, em busca das oportunidades econômicas que seus antepassados também procuraram.

Na Alemanha, parte deles encontrou trabalho justamente em negócios criados por descendentes de outros italianos.

É uma história que conecta Itália, Brasil e Alemanha por meio de imigração, cidadania, trabalho sazonal e tradição empresarial.

Debate deve continuar

A investigação da Süddeutsche Zeitung abriu um debate sobre as condições oferecidas aos trabalhadores sazonais brasileiros nas gelaterias italianas da Alemanha.

De um lado, estão os relatos de trabalhadores que descrevem jornadas excessivas e situações que consideram abusivas. De outro, representantes da comunidade italiana defendem a trajetória histórica do setor e contestam a generalização das acusações.

O caso também chama atenção para a necessidade de fiscalização das condições de trabalho e para a proteção de trabalhadores migrantes, independentemente de sua nacionalidade ou de possuírem cidadania europeia.

Enquanto as denúncias apresentadas pela reportagem devem ser verificadas individualmente, a história mostra como uma antiga rede de imigração italiana continua produzindo novos movimentos migratórios, desta vez envolvendo milhares de brasileiros descendentes de italianos que atravessam o Atlântico em busca de trabalho durante o verão europeu.

 

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