Famílias protestam contra decreto que limita alunos estrangeiros nas escolas da Itália

Famílias protestam contra o limite de 30% de alunos estrangeiros nas escolas da Itália e pedem que Mattarella não assine a medida.

Famílias, estudantes e professores foram às ruas em Roma e Gênova para protestar contra as novas regras do governo italiano para a formação das turmas escolares. A mobilização questiona a aplicação de um limite de 30% para alunos estrangeiros em determinadas classes e pede que o presidente Sergio Mattarella não promulgue a medida.

O protesto começou em Roma, na escola Di Donato, no bairro Esquilino, onde famílias levaram faixas com a frase “ninguém é estrangeiro”. A escola reúne crianças de cerca de 50 nacionalidades e é apresentada pelos organizadores da mobilização como um exemplo de convivência e integração.

A campanha foi noticiada pelo jornal La Stampa e ganhou adesões de outras escolas da capital italiana.

O que prevê a regra dos 30%

Apesar de o debate ter ganhado força agora, o limite de 30% para estudantes com cidadania não italiana não é uma novidade absoluta no sistema educacional italiano.

A regra foi introduzida pelo Ministério da Educação ainda em 2010 e previa, como princípio geral, que a presença de alunos estrangeiros em uma mesma turma não ultrapassasse 30%. A própria administração escolar poderia adaptar o percentual de acordo com as características da região, a disponibilidade de estruturas de apoio e as competências linguísticas dos estudantes.

Documentos oficiais mais recentes também mostram que a política educacional italiana passou a considerar de forma mais específica o domínio da língua italiana. Uma norma publicada em 2024 prevê a possibilidade de designar professores dedicados ao ensino de italiano para estrangeiros em classes nas quais estudantes recém-chegados ao sistema italiano ou sem competências linguísticas básicas representem pelo menos 20% da turma.

O Ministério da Educação também registra que, no conjunto do país, cerca de 5% das classes tinham mais de 30% de alunos com cidadania estrangeira. Quando considerados apenas estudantes estrangeiros nascidos fora da Itália, a proporção de classes acima desse percentual cai para 0,7%.

Famílias questionam critério baseado na cidadania

É justamente a utilização da cidadania como um dos critérios que provoca reação entre as famílias mobilizadas.

Segundo os organizadores do protesto, a regra não deveria tratar da mesma maneira uma criança recém-chegada ao país e outra que nasceu na Itália, fala italiano e está integrada ao sistema escolar, mas possui pais estrangeiros.

“Na nossa escola as crianças não são cotas para distribuir”, afirmou Margherita Gentile, presidente da associação de pais da escola Di Donato.

A mobilização foi organizada pela presidente e pela vice-presidente da associação de pais, ambas italianas e mães de crianças italianas. O apelo começou a circular em grupos de mensagens e recebeu apoio de outras escolas de Roma, incluindo Pisacane, Bonghi, Mazzini e Plinio.

A Rete Studenti Medi também aderiu à campanha e passou a divulgar o texto no Lácio e em outras regiões do país.

Pais temem separação entre crianças

Entre os argumentos apresentados pelos manifestantes está o receio de que a aplicação rígida do limite produza uma separação entre estudantes.

Pais afirmam temer que crianças com cidadania italiana também sejam afetadas por critérios relacionados à origem familiar ou à aparência.

Jean René Bilongo, um dos autores do apelo, afirmou que a medida poderia colocar determinados estudantes em uma “condição de inferioridade injustificada”.

Os organizadores defendem que a avaliação das necessidades linguísticas seja feita individualmente, em vez de utilizar apenas a cidadania como referência para a distribuição dos alunos.

Governo defende medidas para melhorar o italiano

A discussão ocorre dentro de uma política mais ampla do governo italiano para reforçar o ensino da língua italiana entre estudantes de origem migrante.

Em 2024, o ministro da Educação e do Mérito, Giuseppe Valditara, defendeu no Senado a adoção de medidas específicas para estudantes estrangeiros que apresentam dificuldades com o idioma.

Segundo Valditara, o governo pretendia combinar a avaliação do conhecimento da língua italiana com atividades obrigatórias de reforço e a formação de professores especializados em italiano para estrangeiros.

A legislação já prevê mecanismos de apoio linguístico. Uma das medidas permite a designação de professores de italiano L2 para determinadas classes com concentração significativa de alunos estrangeiros que ainda não possuem competências básicas no idioma.

Dados mostram concentração desigual nas escolas

Os dados do próprio Ministério da Educação ajudam a dimensionar o problema que está no centro da discussão.

Segundo o relatório oficial sobre alunos estrangeiros no sistema escolar italiano, existem escolas com concentração superior a 30% de estudantes com cidadania estrangeira, principalmente em regiões como Lombardia, Emilia-Romagna e Veneto. Em algumas instituições, a proporção ultrapassa 50%.

No entanto, o mesmo levantamento faz uma distinção importante: muitos desses estudantes estrangeiros nasceram na própria Itália. Por isso, a cidadania não necessariamente indica falta de domínio do italiano ou dificuldade de integração escolar.

Esse é um dos principais pontos levantados pelos críticos da medida.

Protestos pressionam Mattarella

Com os protestos em Roma e Gênova, as famílias agora pressionam o presidente Sergio Mattarella para que não assine a medida.

A mobilização ocorre em um momento em que o governo de Giorgia Meloni busca reforçar políticas voltadas à aprendizagem da língua italiana e à organização das escolas diante da presença crescente de estudantes de origem migrante.

Mattarella, por sua vez, destacou recentemente, na abertura do ano escolar 2026-2027, a importância da escola como espaço de conhecimento, diálogo e formação. Durante a cerimônia em Amatrice, o presidente afirmou que a escola deve reunir “conhecimentos e criatividade, cultura e diálogo entre as pessoas”.

O debate vai além do percentual de 30%. De um lado, o governo defende mecanismos para lidar com dificuldades linguísticas e com a concentração de estudantes em determinadas escolas. Do outro, famílias e organizações questionam o uso da cidadania como critério e defendem que as necessidades linguísticas sejam avaliadas individualmente.

Enquanto a discussão avança, o principal ponto de tensão permanece: como organizar as turmas e garantir o aprendizado do italiano sem transformar a origem ou a cidadania dos estudantes em um critério de separação escolar.

 

Leia também: Extrema direita conquista grupo no Senado da França pela primeira vez na história

Comente

Neste Artigo

Sobre o autor