Macron busca apoio de países do Golfo para conter alta dos combustíveis em meio à crise na França

Presidente francês iniciou viagem ao Kuwait, aos Emirados Árabes Unidos, ao Bahrein e ao Catar para negociar o fornecimento de energia e reforçar parcerias estratégicas.

O presidente da França, Emmanuel Macron, iniciou nesta segunda-feira (19) uma viagem diplomática pelos países do Golfo para negociar o fornecimento de combustíveis e tentar conter a alta dos preços da energia. A iniciativa ocorre em meio a uma crise interna marcada por protestos contra o custo de vida e episódios de violência registrados em diversas cidades francesas durante o fim de semana.

A primeira parada foi no Kuwait, onde Macron se reuniu com o emir Mechaal al-Ahmad Al-Sabah, no Palácio Bayan. A agenda inclui ainda visitas aos Emirados Árabes Unidos, ao Bahrein e ao Catar até quarta-feira (21).

Segundo o Palácio do Eliseu, sede da Presidência francesa, o objetivo é obter compromissos para o fornecimento de hidrocarbonetos em um momento de instabilidade nos mercados internacionais de energia.

Bloqueio de rotas marítimas pressiona preços

A alta dos combustíveis está relacionada às tensões no Oriente Médio, especialmente ao bloqueio do estreito de Ormuz, por onde passava cerca de 20% do petróleo comercializado mundialmente antes da guerra com o Irã.

Os ataques de grupos houthis, alinhados a Teerã, contra a Arábia Saudita e as ameaças à navegação no estreito de Bab el-Mandeb também afetam as rotas de transporte de petróleo e outras mercadorias entre a Ásia e a Europa.

Durante as conversas no Kuwait, uma das alternativas discutidas foi o envio de estoques de querosene e diesel mantidos em Omã, próximo ao estreito de Ormuz, para territórios ultramarinos franceses, como Reunião e Mayotte.

Macron também pretende negociar medidas para proteger as rotas marítimas e ampliar as alternativas de transporte de energia. Entre as possibilidades está o uso de oleodutos terrestres que atravessam o Iraque.

Apesar das negociações, especialistas avaliam que os resultados da viagem dificilmente terão efeitos imediatos sobre os preços cobrados dos consumidores.

Especialistas questionam impacto imediato

Para Francis Perrin, especialista em energia do Instituto Francês de Relações Internacionais e Estratégicas (IRIS), os países do Golfo têm interesse em continuar abastecendo os mercados internacionais, mas a instabilidade regional dificulta a definição de compromissos de longo prazo.

O professor Thierry Bros, da Sciences Po, também demonstrou ceticismo em relação à capacidade de a iniciativa produzir resultados rápidos. Ele destacou as limitações das finanças públicas francesas como um obstáculo para a compra de combustíveis em um cenário de preços elevados.

Viagem ocorre em meio à crise interna

Macron manteve a agenda internacional mesmo diante da crise política e social na França. Antes de embarcar, o presidente fez um pronunciamento aos franceses e prometeu rigor contra os responsáveis pelos atos de violência durante os protestos.

Ele também afirmou que pretende ampliar a transparência sobre as regras de manutenção da ordem pública, alvo de críticas após os episódios de caos registrados em diferentes cidades no sábado.

O custo dos combustíveis está entre as principais reivindicações dos manifestantes, aumentando a pressão sobre o governo para encontrar medidas capazes de aliviar o impacto da alta dos preços sobre a população.

França negocia acordos de defesa e tecnologia

Além do abastecimento energético, a viagem busca ampliar a cooperação econômica e militar com os países do Golfo.

No Kuwait, a ministra francesa das Forças Armadas, Catherine Vautrin, assinou uma declaração de intenções na área de defesa. As conversas também incluíram possíveis vendas de armamentos.

A fabricante europeia Airbus, por sua vez, firmou uma declaração de intenções para acompanhar a renovação da frota da Kuwait Airways, além de cooperar em serviços de manutenção e treinamento.

Na área de tecnologia, a empresa francesa de inteligência artificial Pertimm assinou um acordo para colaborar na organização dos dados do governo kuwaitiano. A expectativa é que um contrato definitivo seja firmado até o fim do ano.

A França e o Reino Unido também lançaram uma iniciativa internacional voltada à reabertura do estreito de Ormuz, com previsão de operações de desminagem após o restabelecimento da paz. No entanto, as tensões entre os Estados Unidos e o Irã continuam dificultando uma solução para o conflito.

 

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