O crescimento de uma nova força da direita radical começa a movimentar o cenário político italiano antes das eleições parlamentares previstas para 2027. Liderado pelo eurodeputado Roberto Vannacci, o partido Futuro Nazionale vem ganhando espaço nas pesquisas e pode disputar diretamente parte do eleitorado que hoje apoia a coalizão da primeira-ministra Giorgia Meloni.
Vannacci, uma das figuras mais controversas da política italiana, afirma que o atual governo, considerado de extrema direita, ainda não representa uma posição suficientemente à direita.
O partido começou a divulgar, em etapas, seu programa ideológico e eleitoral para as eleições de 2027. Entre as propostas estão restrições a conteúdos relacionados a gênero e homossexualidade na televisão, oposição ao aborto e mudanças na legislação sobre feminicídio.
Partido defende restrições a conteúdos LGBTQIA+
Na segunda parte do programa, divulgada em 22 de agosto, o Futuro Nazionale concentrou suas propostas em temas relacionados à família e à identidade.
Uma das medidas mais polêmicas prevê a proibição da exibição na televisão, entre 6h e 23h, de conteúdos relacionados a gênero e homossexualidade. O partido também questiona o apoio de governos a eventos e iniciativas ligados ao orgulho LGBTQIA+.
Esse documento classifica os valores familiares e cristãos como “não negociáveis” e defende o modelo de família tradicional, formado por um homem e uma mulher.
O programa também contesta a existência de um “direito ao aborto” na Itália e questiona a legislação atual, que permite a interrupção voluntária da gravidez nos primeiros 90 dias.
Programa defende “patriarcado mediterrâneo”
A primeira parte do programa eleitoral, divulgada duas semanas antes, também provocou repercussão no país.
Entre as propostas apresentadas está o conceito de “patriarcado mediterrâneo”. Segundo o Futuro Nazionale, a ideia estaria relacionada à formação de homens fortes, com a responsabilidade de proteger as mulheres e a sociedade.
O partido também defende o fim da tipificação do feminicídio como crime autônomo. A medida entrou em vigor em dezembro e prevê prisão perpétua para esse tipo de crime.
Partido quer atrair descendentes de italianos
A imigração é outro dos principais temas do programa do Futuro Nazionale. O partido defende “tolerância zero” contra a imigração irregular e propõe políticas de “remigração”, termo utilizado para designar medidas que incentivem ou facilitem o retorno de imigrantes aos países de origem.
Ao mesmo tempo, a legenda pretende estimular a chegada de descendentes de italianos que vivem no exterior.
O programa prevê incentivos fiscais para trabalhadores que tenham direito à cidadania italiana pelo ius sanguinis, ou direito de sangue. Entre os países citados estão Brasil, Argentina e Venezuela.
A proposta, porém, não explica como esses incentivos seriam aplicados diante das restrições impostas pelo governo Meloni, no ano passado, ao reconhecimento da cidadania italiana por descendência.
Vannacci chega a 7,1% nas pesquisas
O avanço do Futuro Nazionale já aparece nas pesquisas de intenção de voto.
Segundo levantamento da Ipsos Doxa divulgado no fim de julho, o partido de Vannacci alcançou 7,1%, uma alta de 1,1 ponto percentual em relação à pesquisa anterior.
Com o resultado, a legenda passou à frente da Lega, antiga sigla de Vannacci, que aparece com 5,1%. O Fratelli d’Italia, partido de Giorgia Meloni, continua na liderança, com 26,5%.
O crescimento preocupa a atual coalizão porque Vannacci se posiciona fora da aliança governista e disputa parte do mesmo eleitorado de direita.
Eleições podem ser antecipadas
Diante desse cenário, o governo italiano discute a possibilidade de antecipar as eleições parlamentares para abril de 2027.
O pleito precisa ocorrer até outubro daquele ano, quando Meloni completará cinco anos no cargo.
Uma eventual antecipação poderia permitir que a atual coalizão aproveitasse o momento favorável nas pesquisas e evitasse dar mais tempo para o Futuro Nazionale ampliar sua presença no eleitorado.
Outro fator considerado é o calendário orçamentário. Uma eleição em abril daria ao próximo governo mais tempo para preparar a lei orçamentária do ano seguinte, uma das principais tarefas da administração italiana durante o segundo semestre.
De general a líder da direita radical
Roberto Vannacci chegou à política depois de uma longa carreira militar. General do Exército italiano, participou de missões em países como Somália, Afeganistão e Iraque.
Sua projeção nacional aumentou em 2023, quando publicou o livro “O Mundo ao Contrário”. A obra vendeu milhares de cópias pela internet e provocou forte controvérsia por trechos considerados homofóbicos e racistas.
Em uma das passagens mais polêmicas, Vannacci afirma que homossexuais “não são normais”. Em outro trecho, ao falar sobre a jogadora de vôlei Paola Egonu, filha de nigerianos, afirma que, apesar de ela ter cidadania italiana, seus traços físicos não representariam a “italianidade”.
A repercussão do livro impulsionou sua entrada na política. Em 2024, Vannacci se aproximou da Lega, partido de direita radical liderado pelo vice-primeiro-ministro Matteo Salvini, e foi eleito para o Parlamento Europeu.
A parceria, porém, durou pouco. Em fevereiro de 2026, Vannacci rompeu com a Lega e fundou o Futuro Nazionale, buscando ocupar um espaço ainda mais à direita na política italiana.
O crescimento da nova legenda acrescenta, assim, um novo elemento à disputa eleitoral de 2027 e pode pressionar a atual coalizão governista a definir sua estratégia antes do próximo pleito.
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